Envelhecer não é a crise. É o êxito. - Resenha crítica - 12min Originals
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Envelhecer não é a crise. É o êxito. - resenha crítica

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Este microbook é uma resenha crítica da obra: 

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ISBN: 

Editora: 12min

Resenha crítica

Hideki Tanaka toma três cafés por dia. O primeiro, em casa, ao lado de Yumi, sua esposa há cinquenta e dois anos. O segundo, num pequeno escritório em Shibuya, onde ainda presta consultoria — duas manhãs por semana — pra três empresas que o conheceram quando ele dirigia a Mitsubishi. O terceiro, à tarde, com o neto Sho, vinte e seis anos, que mora a quatro quarteirões e passa pra conversar sobre trabalho, política, miudezas.

Hideki tem setenta e três anos. Diz que essa é a fase mais agradável da sua vida. Caminha quarenta minutos por dia, come pouco e devagar, vai ao médico quatro vezes por ano. Ele escolheu esse ritmo.

A cena pode parecer pequena. Não é. Ela está se repetindo, em ritmos diferentes, em Tóquio, Milão, Seul, Stuttgart e, em breve, Xangai. O mundo está envelhecendo. E, contra o que a maioria das manchetes sugere, isso pode ser uma das melhores notícias que a nossa civilização recebeu.

Os números são conhecidos, mas vale lembrar a escala. No Japão, quase trinta por cento da população já tem mais de sessenta e cinco anos — são trinta e seis milhões de pessoas. A Itália passou dos vinte e cinco por cento. A Coreia do Sul registrou em dois mil e vinte e três a fertilidade mais baixa já contabilizada na história mundial, zero vírgula setenta e dois filho por mulher, com leves sinais de recuperação desde então. A China perde população em números absolutos pela primeira vez em séculos.

Esses dados costumam vir embalados em palavras como tsunami, colapso e bomba demográfica. A escolha das palavras importa, porque define a história que estamos contando a nós mesmos sobre o que está acontecendo.

A leitura mais corrente é apocalíptica. Países envelhecidos não têm gente pra sustentar a previdência. Perdem dinamismo. Viram museus a céu aberto. Os jovens são forçados a trabalhar mais pra carregar mais idosos. A produtividade despenca. A inovação morre.

Há verdades parciais em todas essas afirmações. Mas elas partem de uma suposição que vale ser examinada: a de que envelhecer é, por natureza, uma perda. E essa suposição está cada vez mais frágil.

O envelhecimento global é o resultado de duas conquistas que a humanidade levou um milênio pra alcançar — vidas mais longas e mortes infantis mais raras. Em mil e oitocentos, cerca de quatro em cada dez crianças morriam antes dos cinco anos. Hoje é menos de quatro em cada cem. Mães pararam de enterrar filhos pequenos. Adultos passam a planejar a velhice como uma fase real, não como milagre.

Isso não é uma crise. É o sucesso da modernidade chegando à sua maturidade biológica.

Talvez seja hora de chamar isso de outra coisa. Longevidade desenhada, por exemplo — viver mais não como acidente biológico, mas como projeto consciente. Uma fase que pode e deve ser planejada com a mesma seriedade com que se planeja a carreira ou a poupança.

A psicóloga Linda Gratton, professora da London Business School e coautora de The Hundred-Year Life, vem argumentando há quase uma década que o modelo tradicional de vida em três fases — estudar, trabalhar, aposentar — está obsoleto. Pra quem nasce hoje, viver até os cem anos não será exceção, e isso obriga a imaginar a vida em transições múltiplas, com mais de uma carreira, mais de um período de estudo, mais de uma forma de descanso. A aposentadoria deixa de ser fim de jogo e vira uma das fases — talvez a mais longa de todas.

O Japão, que envelheceu primeiro, está liderando a invenção prática. Desde abril de dois mil e vinte e cinco, todas as empresas japonesas são obrigadas por lei a manter empregado qualquer trabalhador que queira seguir trabalhando até os sessenta e cinco anos, e a fazer esforço comprovado pra estender até os setenta. Grandes empregadores como o Mitsubishi UFJ Bank, a Japan Airlines, a Suntory e a Daikin criaram esquemas com aumento salarial pra reempregar veteranos. O resultado é mensurável: vinte e cinco por cento dos japoneses acima dos sessenta e cinco trabalham hoje, o dobro da taxa britânica, e oitenta por cento dos trabalhadores acima dos sessenta declaram em pesquisa que querem continuar trabalhando. Não por necessidade, na maioria dos casos. Por propósito, rotina e saúde mental.

Na Europa, vilarejos italianos esvaziados pela migração urbana estão sendo repovoados por aposentados europeus e trabalhadores remotos via o programa das casas de um euro, iniciativa que começou em dois mil e oito e já se espalhou pra França, Espanha, Croácia e Japão. O que era êxodo virou retorno.

Em paralelo, viver bem na terceira idade deixou de ser questão de sorte genética. Virou um campo de estudo, prática e — pra quem tem acesso — escolha consciente. A ciência das últimas duas décadas confirmou o que algumas culturas já sabiam por intuição. Movimento diário, sono profundo, alimentação simples e vida social ativa explicam mais a longevidade saudável do que qualquer remédio. Estudos longitudinais de Harvard e da Universidade de Okinawa chegaram, por caminhos diferentes, ao mesmo ponto. O corpo envelhece com qualidade quando recebe estímulo, descanso e companhia.

A tecnologia entrou junto. Monitores contínuos de glicose, sensores de sono, exames preventivos de imagem, suplementação personalizada e telemedicina deram aos sessentões e setentões de hoje ferramentas que os médicos dos seus pais nem imaginavam. Um aposentado em dois mil e vinte e seis pode acompanhar a própria saúde com mais precisão do que um executivo monitorava o caixa de uma empresa em mil novecentos e noventa.

A liberdade real da nova longevidade não é a obrigação de continuar produzindo. É ter mais combinações possíveis entre trabalho, descanso, aprendizado e família — e dispor de saúde pra escolher cada uma sem pressa.

Enquanto isso, no outro lado do mapa, a África subsaariana caminha pra dobrar de população até dois mil e cinquenta — de aproximadamente um bilhão hoje pra dois vírgula um bilhões, segundo a Divisão de População da ONU. A Nigéria sozinha pode ultrapassar os Estados Unidos. A geografia do trabalho, do consumo e da inovação vai se reorganizar. As economias envelhecidas vão precisar importar mão de obra, talento e ideias. As economias jovens vão precisar de capital, tecnologia e mercados. A relação entre os dois blocos pode ser uma das histórias mais importantes do nosso tempo — e ainda está sendo escrita.

O que fazer com essa informação

Algumas observações pra acompanhar esse movimento sem ser engolido pelo barulho.

Primeiro: desconfiar de manchetes que tratam o envelhecimento como catástrofe iminente. Elas costumam vir de quem não olhou a história longa da demografia.

Segundo: observar o que o Japão está inventando em política trabalhista pra profissionais maduros. É lá que estão sendo testadas as primeiras respostas práticas pra uma realidade que vai chegar a todos os países desenvolvidos nos próximos vinte anos.

Terceiro: lembrar que envelhecer junto é uma sorte rara na história da espécie. Por milênios, foi privilégio de poucos. Agora é o destino de quase todos. Isso muda muita coisa — inclusive a forma de pensar a própria vida.

Hideki Tanaka termina o segundo café e olha pela janela do escritório em Shibuya. Lá fora, uma cidade que tem mais de oito milhões de pessoas acima de sessenta e cinco anos continua trabalhando, descansando, criando, andando devagar pelas ruas — cada um no seu ritmo. Tóquio não está em ruínas. Está em transição.

Talvez seja essa a notícia que vale a pena guardar pela manhã. O mundo está envelhecendo, e — devagar, sem manchete — está descobrindo que isso pode ser melhor do que parecia.

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